O aluno superdotado

Recebi numa certa época, um aluno portador de altas habilidades.

A mãe vinha de  outra escola aflitíssima, pois o filho super inteligente, mas emocionalmente imaturo, causava toda sorte de problemas possíveis e imaginários com os colegas e com os professores. A mãe era chamada constantemente  e já não sabendo  mais o que fazer optou por trocar de escola, numa tentativa desesperada de pelo menos amenizar a situação. Era ela uma pessoa maravilhosa. Companheira, parceira, amiga e pedindo socorro.

Conversei com  o aluno pela primeira vez. Ele tinha um vocabulário riquíssimo para a  idade, argumentação irrefutável e um poder de convencimento incrível.

Nossas conversas se tornaram quase diárias por um bom tempo.

Percebi que, com o seu poder incomum de comunicação e de persuasão, ele perdera totalmente a noção de limites.

Ele aprontava, argumentava e estava sempre com a razão,  mas  sofria.

À medida que fomos conversando e já com a confiança da família, fizemos  alguns combinados.

Quando tinha alguma questão para ser resolvida e ele já entrava na minha sala falando, muito agitado. Eu aguardava por uns instantes para que  tomasse fôlego no meio do fluxo de palavras e falava mansamente:

- Você pode me ouvir?

Ele naturalmente já estava retornando com a torrente de argumentos.

Eu repetia:

- Você pode me ouvir?

Aos poucos ele ia se acalmando.

Eu dizia para ele :

- Temos um problema. Eu não quero que você argumente, porque você argumenta  melhor do que eu, e aí então, mais uma vez, você vai ganhar no poder de argumentação, mas vai continuar com o problema sem solução. Eu quero que você me obedeça!

Depois de tantas vezes, repetida a mesma situação, acredito que ele tenha começado a compreender que a questão não era ganhar no grito, mas que  precisava de auxílio e que podia ser auxiliado.

Na sua imaturidade, apresentava também uma intolerância assustadora com os colegas de sala que apresentassem alguma dificuldade, chegando mesmo a ser cruel em muitas ocasiões.

Começamos então a abordar também essa outra situação.

Eu passei a repetir para ele.

- A inteligência que você tem é uma bênção. A grande maioria das pessoas  não possuem a sua capacidade, então a sua palavra de ordem em relação aos demais é generosidade.

Continuamos assim ao longo dos dias, dos meses, por um longo tempo: Obedeça, seja generoso.

No decorrer dos anos esse aluno foi se adequando à realidade, criando possibilidades para uma convivência saudável e desenvolvendo até mesmo uma relação de afeto  com a turma.

A mãe esteve ao nosso lado em todos os momentos necessários, nos apoiando sempre. Reconhecia o nosso trabalho, o nosso empenho e também se sentia apoiada.

Lidar com o diferente, em quaisquer dos extremos, é sempre muito difícil, exigindo disponibilidade e  sobretudo humanidade.

Esse aluno fez vestibular para uma das engenharias e insatisfeito, logo trocou de curso, já tendo feito isso, agora, pela segunda vez.

Existe uma insatisfação interior no superdotado difícil de preencher. É como se ele sempre pedisse mais. Espero que o ajuste aconteça e que esse meu querido ex-aluno possa levar uma vida saudável e adaptada.

Penso sempre nele e me recordo  das suas  muitas histórias.

Aprendi também muito com ele.

Quem tem um filho portador de altas habilidades terá que dialogar muito e impor os limites necessários à convivência e à vida em harmonia. Como essa criança tem uma capacidade incrível de análise é preciso mostrar sempre a lógica em todas as circunstâncias.

Um grande abraço,

Maria

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