De panelas e lambaris

Na casa da família do filho de imigrantes italianos a polenta fumegava na pesada panela de ferro no fogão a lenha, soltando bolhas de vapor.
Era uma cena diária!
A menina e os dois meninos estavam habituados à cena comum e a polenta era consumida naturalmente.
Ninguém, em momento algum, perguntou se eles gostavam ou não daquela iguaria. Simplesmente se colocava no prato e comia.
É claro que a propriedade de alguns alqueires oferecia basicamente tudo em termos de alimentação e se podia variar o cardápio, como de fato era feito.
A criação de animais era farta!
O gado bovino, suíno e a avicultura garantiam a proteína necessária. Hortas e frutas em geral completavam a alimentação.
Tudo variava menos a polenta, que, de segunda a segunda, lá estava ela, presente em todas as refeições.
Depois de bem cozida era virada sobre uma travessa e estava pronta para o consumo.
Aí é que a magia acontecia!
No fundo da panela ficava a casca da polenta. Grudadinha no contorno da panela.
As crianças, então, corriam com a panela e a colocavam dentro do rio, que, no fundo da casa, era bem raso, ornado por uma grande laje de pedra.
Voltavam para casa para o almoço em família.
Tempos depois retornavam ao rio e aí é que a história tinha graça! A panela estava cheia de lambaris, peixe pequeno, à procura de alimentação.
Euforia!
E zás, com um prato esmaltado tapavam a panela e a pescaria estava garantida. Algazarra total!
Mas toda história tem um porém, e, é nesse momento que vem o problema: A panela de ferro, cheia de água e de lambaris ficava muito pesada.
Puxavam pela alça da panela, para tirar do rio, e, puxa de lá, puxa de cá, a panela despenca e batendo na laje o fundo se solta. Aí vai panela, vai água, vai peixe e vai bronca da mãe que perdeu mais uma panela.
Quase sempre a batalha era vencida, mas fosse como fosse, a diversão estava garantida.
A felicidade é mesmo uma questão muito pessoal!

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Imprecisão

Talvez fosse bom
Seguir com o vento
Nas asas do tempo,
Pra qualquer lugar.

Talvez fosse bom
Se deixar levar
Sem fazer escolhas,
Sem planejar.

Talvez fosse bom
Esse só existir
Sem competir,
Sem querer ganhar.

Com toda a leveza,
Aceitar a vida
Sem programar.

Mas será que a vida assim vale a pena?
Sem rumo e sem lugar?

Mas será que um dia a vida cobra?
E qual será, o preço a pagar?

Poema musicado e interpretado por Carlos Bona na coletânea do CD Poemas Musicados I/2018

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Primavera

Prenúncio para os novos dias
Que chegam com todas as cores,
Com aroma e com as flores
Trazendo poesia pro olhar.
É primavera que chega
Soberana e altaneira
Espalhando a beleza
Revelando a grandeza
Da natureza a vibrar.
São sons de uma brisa leve
Cálido sol a embalar
Esperança e novos sonhos
Expectativa no ar.
E essa bela estação
Traz sempre a ilusão
Do poder de renovar.
Novos dias de prazer
Na ânsia de reviver
É cheiro de sol e mar.
E a vida se refaz,
Em momentos de alegria
Sentindo toda a magia
Da primavera a chegar!

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“Quem não enxerga o que tem vive como se não tivesse nada”

Li em algum lugar, não me lembro onde, e considerei a frase impactante.
Ferreira Gullar disse em uma das suas últimas entrevistas que há muitos anos já não fazia poesias, pois o fato tem que surpreender e que ele já não se surpreendia mais com nada.
Acho que atualmente entramos em um novo ciclo e passamos a ter surpresas, quase sempre desagradáveis todos os dias.
Mas voltando à frase acima me ocorreu uma citação do filósofo alemão do século XIX Arthur Schopenhauer, conhecido, também, como o filósofo da vontade, em que ele diz: “A vida humana, pois passa-se toda em querer e em adquirir”. Segundo ele, se o homem residisse em um local onde encontrasse tudo pronto que ele morreria de tédio, se suicidaria, ou então passaria a estrangular outros homens. Que a vontade tudo quer, sem limites, mas é regida pela consciência, diferente dos animais, que agem por instinto.
Refleti: Tudo bem, deixar de querer realmente seria o caos, o sonho é necessário, mas desejar coisas, lutar por elas e não valorizar o que se conseguiu seria igualmente desastroso. Uma insanidade!
Na contramão disso tudo considero que seria cabível colocar aqui o sentimento de gratidão. “Quem não enxerga o que tem vive como se não tivesse nada”. Que triste! Depois de tantos sonhos realizados, tantas lutas, tantas conquistas, viver como se não tivesse nada?
Merecemos muito mais que isso. Merecemos vibrar com nossas vitórias e tomar posse de tudo o que temos e agradecer a cada dia,
Naturalmente continuaremos buscando, em sentidos diversos, mas que sejamos plenos.
O filósofo concluiu que o homem não nasceu pra ser feliz, mas acredito que teorias mudam de significado.
Que tal provar o contrário?
Que sejamos felizes com o que temos! É preciso Enxergar!

Maria Viola Bona

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Abriram as jaulas, soltaram as feras

Fico observando, nesse período de disputa eleitoral, como o animal selvagem se desprende do animal racional que somos, ou pelo menos que deveríamos e acreditamos ser, e parte para o ataque frontal numa disputa irracional, sem sentido.

Realmente a sonhada paz mundial é uma grande utopia!

Parece que o ser humano é mesmo uma fera enjaulada sempre pronta para agredir, claro que, com justas e honrosas exceções.

As ações e reações causam perplexidade!

Os lobos famintos saltam com suas alcatéias na defesa do território das ideias pré-concebidas.

Quanta intolerância!

Quanta ignorância!

Quanto desrespeito!

Quanta falta de bom senso!

Chegamos mesmo à criminalidade!

As jaulas são necessárias!

O ser espiritual, então, parece estar de férias.

Um cenário de guerra a caminho do nada.

Infelizmente, “Assim caminha a humanidade”.

Maria Viola Bona

14/09/2018

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O valor de um sonho

Um fato ocorrido recentemente numa reunião festiva com amigos de longa data levou-me a refletir por dias e dias sobre essa questão do valor de um sonho.
O dia transcorreu alegre, com muitos abraços e muitas lembranças.
Já no final, na hora da despedida, uma das minhas amigas aproximou-se de mim mostrando uma foto no celular.
Na foto ela estava vestida de noiva. Um vestido simples e bonito, adornado por um lindo véu.
– Que lindo!
Ela só sorria, permanecendo com o celular ao meu alcance.
Pude observar, então, que a foto era recente. Não entendi!
– Não me casei vestida de noiva, explicou ela, aí fui num bazar, comprei esse vestido e tirei essa foto.
Fiquei muda!
Eu não sabia se ria, ou se chorava.
Recuperei o fôlego.
– É a realização de um sonho?
– Sim!
– E como você se sente?
– Realizada!

A partir desse momento comecei a refletir sobre a situação, que naturalmente leva a tantas outras questões.
Minha amiga se casara muito cedo, ainda na época da faculdade. Teve um casamento feliz, ficando casada por mais de quarenta anos. Dessa união veio um casal de filhos. Ficou viúva há alguns anos devido a uma doença da qual seu marido foi acometido. Ela sofreu muito com a perda e se recupera aos poucos.
Agora, após todos esses anos, eis que um sonho acalentado toma força e ela se propõe a realizá-lo.
Ainda não consigo dimensionar o quão importante foi para a minha amiga a realização desse sonho. Com certeza isso realmente era essencial para ela, e fico surpresa e feliz com a atitude por ela tomada.
Mas o fato desencadeou um sem número de reflexões.
Quando me lembro da expressão de plenitude dela, penso que todas as pessoas que têm um sonho pendente deveriam fazer o impossível para que ele fosse realizado.
Sabemos que a vida é passageira, já ouvimos também milhões de vezes que nossas escolhas determinam nossos resultados, mas e os sonhos? Aqueles que ficaram escondidinhos, tímidos para vir à tona, com medo do ridículo, por vergonha de se expor.
Se você tem um sonho, vá à luta, trate de realizá-lo, você só tem agora para fazer isso. Tome posse dele.
O que é importante para um pode não ser importante para o outro, isso não importa se é importante para você.
Minha querida amiga, se você ler essa postagem, me perdoe por estar colocando aqui a sua história, mas é que ela de fato me causou uma grande impressão positiva. Fiquei absolutamente sensibilizada.
Aplausos para você!

Maria Viola Bona

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“Quando a vida não oferece escolhas”

Estou terminando a revisão e a correção do segundo livro de minha autoria, um romance intitulado Quando a vida não oferece escolhas, que será brevemente publicado.
Li e reli tantas vezes que fiquei íntima das personagens por mim criadas.
Às vezes me sinto um deus por poder definir seus destinos, e, às vezes, me surpreendo com a autonomia delas.
É claro que, essas personagens percorrem caminhos que são oriundos de histórias por mim vividas, de outras presenciadas, ou outras tantas que me foram contadas.
Cheguei mesmo a me emocionar com muitas de suas trajetórias e acabei fazendo um “balanço” geral, concluindo que, na verdade as histórias das vidas das pessoas estão muito próximas.
Em níveis e situações diversas, alegria, dor, saudade, angústia, sofrimento, felicidade, frustração, desencanto e outros fazem parte da vida de todo ser humano.
Sabemos que nossas escolhas determinam muito das nossas histórias, mas há também o imprevisto, sobre o qual não temos domínio.
Existe também a inadequação à vida, quando não descobrimos o “nosso” porto de chegar.
Meu primeiro livro “Cenas da Vida”, publicado no final de 2014, encontrou seu rumo e abriu portas que eu nem sabia que existiam.
Espero que “Quando a vida não oferece escolhas” também me traga boas surpresas.

Maria

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“O Paraiso é uma questão pessoal”

Segundo Richard Bach a realidade do homem é o que ele acredita.
Nada mais simples, nada mais complexo.
O referido autor inicia o seu livro O Paraíso é uma questão pessoal com a seguinte fala: – É melhor você ter cuidado com o que pede nas suas orações – disse, certa vez, alguém – porque você acabará conseguindo.
Entre as vicissitudes da vida, o cotidiano e o emaranhado de pensamentos e sentimentos sob controle ou descontrolados há uma nebulosidade que impede a visão clara e lógica de que tudo poderia ser apenas uma questão de paradigmas.
Em qual dos mundos existimos?
No real ou no virtual?
Se acreditarmos no “agora” naturalmente viveremos a realidade, então estaremos no mundo como ele se apresenta no momento e teremos condições de adequar os nossos sonhos, anseios e crenças à situação atual e poderemos fazer os ajustes necessários às questões que se fizerem primordiais para o domínio do nosso viver. Sendo assim, “a realidade do homem será o que ele acredita”.
E o mundo virtual?
Desde o momento em que acordamos somos assaltados por todo o tipo de pensamentos, fantasmas do passado ou do futuro que mexem com nossas estruturas emocionais, quase sempre gerando desequilíbrio. Deixamos de viver o mundo real, e ficamos impedidos de ter o domínio sobre a nossa vida.
E o foco?
O negativo tem uma força extraordinária e quase sempre focamos no que não queremos ou tememos, enquanto o que realmente desejamos fica em segundo plano.
Quanto mais pensamos numa situação negativa mais força ela ganha, o inverso também é verdadeiro.
Precisamos então ficar atentos, pegar o nosso leme e conduzir o nosso barco acreditando que quase sempre podemos criar a nossa realidade.

Pensar no que queremos!
Focar no que queremos!
Agir de acordo com o que queremos!

Até breve!

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Compaixão

Por que chora meu coração?
Esse pranto tão sentido,
Sem sentido, sem razão.
-Eu choro as dores do mundo,
Eu choro por compaixão.
Choro pelos refugiados,
Choro pelos desempregados,
Choro pela perda da ilusão!
Pelas histórias sofridas
Que machucaram tantas vidas
Tantas sem superação.
Choro pelas mãos estendidas,
Sem abrigo, sem proteção,
Choro pela solidão!
Choro pelos dias sombrios
Por todos aqueles dias tristes,
Choro toda a dor que existe.
Em qualquer situação.
Eu choro também por que,
Sei que esse choro é em vão.
A dor maior é saber,
Que só tenho a oferecer
Meu choro de compaixão.

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Ilusão

Ilusão

Às vezes presa num corpo cansado
Com dores por todo lado,
Saio livre a flanar
Percorrendo céus e terra
Velejando pelo mar.
Persigo sonhos dourados
Que não pude realizar.
Dou voltas por esse mundo,
Sem pressa de retornar.
Passo por todos os lugares,
Percebo outros olhares,
Experimento sensações
De um viver tão diferente
De outro povo, outra gente,
Em tantas situações.
Ao mesmo tempo tão igual!
Tão palpável, repetido, tão real.
Inerente ao ser humano,
O riso e a dor,
Na busca por si mesmo
À procura de amor
Da ternura e do afeto
Necessário à vida sim,
Semelhante ou adverso
Acaso ilusório ou concreto
O caminho é o mesmo enfim.

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